Nós
A sensação de estar prestes a morrer é exatamente a mesma de não estar. A pele fina dos meus pés alternava entre o chão quente de piche e o ar úmido de verão. A galope, eu corria, fugia. De uma janela, um par de olhos azuis, parcialmente coberto pelas mechas brancas de cabelo seco, observava. Ao perceber a presença dos olhos, parei. Permiti que, entre meus dedos, redemoinhos de ar se trançassem, distorcendo o quintal. Aceitei a dor em minha pele. Aceitei que não poderia fugir nem do quintal, nem dos olhos, nem da pele.
A casa fora reformada antes de minhas primeiras memórias. O chão preto agora cobria o lugar onde antes havia uma piscina. Em algum momento, esta se tornara perigosa demais para uma criança que já sabia andar e para uma senhora que já não conseguia se equilibrar. Em algum momento, a criança e a velha tornaram-se a causa. Depois, tornaram-se nós.
Aquele quintal nos era potência. Ela, do alto da janela. Eu, do alto dos meus pezinhos. No ar úmido, comungávamos.
Duas figuras altivas, vestindo preto, emergiram do ar quente. Seus rostos cobertos de rendas negra. Da janela a velha sorria em acolhimento. Do chao, a criaca sorria em brincadeira. De dentro das rendas, as figuras sorriam em contentamento.
Bom rever-te. Minha irmã e eu queremos pôr fim a uma disputa. Seus olhos já são grandes o suficiente. As duas falavam em um coro quase dolorido, como se lhes fosse obrigatório falar desta forma. Nenhum de nós quatro podia escapar do que nos fora dado. Cristo foi amarrado à cruz. A velha, à saudade. A criança, ao chão. As figuras, ao coro.
A da esquerda se agacha e toca o chão duro, que borbulha em suor. Uma ferida se abre e, timidamente, revela o mais sagrado da terra, que é solo. Com o carinho de uma mãe que coloca um bebê em um berço, ela deposita na fenda uma semente. A semente se quebra com um som oco e, dali de dentro, serpenteia um caule branco. Gradiente verde. Explode, então, em seu topo, agora alto e rigidamente sustentado, um broto. Da flor caem as pétalas e, do cerne, um fruto pesado torce o caule. Veja, criança, este é meu dom.
A da direita se agacha e toca o chão, que respira agora o alívio de uma brisa. O suor seca. O caule cede e o fruto cai. Gradiente negro. Os vermes saboreiam o banquete em frenesi. O caule murcha. Terminado o almoço, murcham também os vermes. Resta agora só uma semente, fora do berço-solo, árida de chão. Quieta e morta. Veja, criança, este é meu dom.
A velha aguarda. As figuras aguardam. Pois bem, quem vence? A brincadeira se tornara grave. Erupção solar, agressiva. Não pude escolher. Muitos anos atrás, num quintal semelhante, a velha também não foi capaz de escolher. Quem quer que tenha colocado o sol ali sabia do fim de todas as coisas, e não se importou. Eu, por não saber, me importei. E, por me importar, não pude escolher.
As figuras aceitam a não resposta como compromisso provisório. Prometem um dia voltar.
A velha respira fundo, seu corpo cansado quase não se move. Para quê?
A sensação de estar prestes a morrer é exatamente a mesma de não estar.
Volto a brincar, a galope de quem foge.
— m.t.