Main illustration for Conto 1 - Quintal
← Back to the papers

Nós

A sensação de estar prestes a morrer é exatamente a mesma de não estar. A pele fina dos meus pés alternava entre o chão quente de piche e o ar úmido de verão. A galope, eu corria, fugia. De uma janela, um par de olhos azuis, parcialmente coberto pelas mechas brancas de cabelo seco, observava. Ao perceber a presença dos olhos, parei. Permiti que, entre meus dedos, redemoinhos de ar se trançassem, distorcendo o quintal. Aceitei a dor em minha pele. Aceitei que não poderia fugir nem do quintal, nem dos olhos, nem da pele.

Conto 1 - Pés

A casa fora reformada antes de minhas primeiras memórias. O chão preto agora cobria o lugar onde antes havia uma piscina. Em algum momento, esta se tornara perigosa demais para uma criança que já sabia andar e para uma senhora que já não conseguia se equilibrar. Em algum momento, a criança e a velha tornaram-se a causa. Depois, tornaram-se nós.

Aquele quintal nos era potência. Ela, do alto da janela. Eu, do alto dos meus pezinhos. No ar úmido, comungávamos.

Conto 1 - Velha

Duas figuras altivas, vestindo preto, emergiram do ar quente. Seus rostos cobertos de rendas negra. Da janela a velha sorria em acolhimento. Do chao, a criaca sorria em brincadeira. De dentro das rendas, as figuras sorriam em contentamento.

Bom rever-te. Minha irmã e eu queremos pôr fim a uma disputa. Seus olhos já são grandes o suficiente. As duas falavam em um coro quase dolorido, como se lhes fosse obrigatório falar desta forma. Nenhum de nós quatro podia escapar do que nos fora dado. Cristo foi amarrado à cruz. A velha, à saudade. A criança, ao chão. As figuras, ao coro.

A da esquerda se agacha e toca o chão duro, que borbulha em suor. Uma ferida se abre e, timidamente, revela o mais sagrado da terra, que é solo. Com o carinho de uma mãe que coloca um bebê em um berço, ela deposita na fenda uma semente. A semente se quebra com um som oco e, dali de dentro, serpenteia um caule branco. Gradiente verde. Explode, então, em seu topo, agora alto e rigidamente sustentado, um broto. Da flor caem as pétalas e, do cerne, um fruto pesado torce o caule. Veja, criança, este é meu dom.

A da direita se agacha e toca o chão, que respira agora o alívio de uma brisa. O suor seca. O caule cede e o fruto cai. Gradiente negro. Os vermes saboreiam o banquete em frenesi. O caule murcha. Terminado o almoço, murcham também os vermes. Resta agora só uma semente, fora do berço-solo, árida de chão. Quieta e morta. Veja, criança, este é meu dom.

Conto 1 - Figuras

A velha aguarda. As figuras aguardam. Pois bem, quem vence? A brincadeira se tornara grave. Erupção solar, agressiva. Não pude escolher. Muitos anos atrás, num quintal semelhante, a velha também não foi capaz de escolher. Quem quer que tenha colocado o sol ali sabia do fim de todas as coisas, e não se importou. Eu, por não saber, me importei. E, por me importar, não pude escolher.

Conto 1 - Sol

As figuras aceitam a não resposta como compromisso provisório. Prometem um dia voltar.

A velha respira fundo, seu corpo cansado quase não se move. Para quê?

A sensação de estar prestes a morrer é exatamente a mesma de não estar.

Volto a brincar, a galope de quem foge.

desenho_2_recortado_branco_transparente.png

— m.t.