Um Ninho
A varanda se estendia entre a casa e a edícula como corredor vazado para o quintal sem vegetação. Os pisos eram antiderrapantes, daqueles caros que se compra apenas para ter certeza de que um idoso não escorregue. Quatro pernas de plástico sustentavam sobre o chão uma mesa branca, daquelas mais baratas que se encontra em qualquer bar de esquina. Uma toalha vermelha de Natal decorada com impressões desgastadas que imitavam ouro. Não era Natal, mas era a melhor que tínhamos. Pratos, copos e talheres postos como presépio, ao redor de uma panela amassada. Sua superfície irregular de ferro fazia-a movimentar-se de supetão quando ventava.
Almoçávamos ali todos os dias, eu e a velha. Horas antes de eu chegar da escola, ela preparava a mesa. Ia e vinha de dentro da minúscula edícula trazendo item por item. Aprendera na igreja como se compõe um altar devagar, com a gravidade de quem carrega nas mãos algo de sagrado. Eu, quando chegava, atravessava a casa ligeiro, jogando a mochila em algum canto para chegar à varanda logo. Tinha pressa e fome.
E mesmo famintos, falávamos de tudo e quase sem parar, atrapalhando a mastigação. Eu contava pra ela das coisas que aprendia na escola. As conquistas de Napoleão, os fiordes da Noruega e as minúsculas células que nos constituíam. Vó, você sabia que um dia o sol vai explodir? Ela arregalava os olhos e inclinava a cabeça para frente. Não se preocupe, isso é só daqui a milhões de anos. Até lá estaremos todos mortos. Aliviada, ela se inclinava de volta para trás.
Ela da velhice monótona, para nos salvar, gostava de inventar pequenas surpresas para nós. A mais canônica era a da batata doce. Uma vez por semana ela escondia batatas doces por debaixo do arroz sem me avisar. Ela aguardava sentada e completamente muda, enquanto eu inspecionava a panela com cuidado, tentando adivinhar, mas adiando a revelação alguns segundos porque sabia que ela achava graça.
Naquele dia a professora havia nos contado sobre a teoria da relatividade. Na aula eu já antecipei que esse seria o assunto para levar à mesa. Cheguei quase pulando de tanto correr e comecei antes mesmo de chegar à mesa. Vó, você sabia que o tempo passa diferente para... Ela, sentada, me fitava, também ansiosa. Ergueu as sobrancelhas e olhou para a panela e para mim. Calei-me e me sentei. Olhei para ela e para a panela e ergui também as sobrancelhas. A panela tremelicou sozinha. Devia ser o vento.
A minha solução para estender o tempo que nos é dado pareceu secundária à dela. Mas ela não cedeu, me pediu que contasse sobre o tempo antes de comermos. Eu contei tudo o que sabia sem tirar os olhos da panela e ela escutou sem tirar os olhos de mim. Ela sorriu. Pois fico feliz que o tempo pode se alongar, eu mesma detesto fazer as coisas com pressa. A panela balançou mais uma vez, dessa vez mais bruscamente. Mas nem ventava...
Ela deixou de me fitar e se movimentou em direção à panela. Eu repeti o gesto. Mais uma vibração. Nos afastamos um pouco. Pousei minha mão sobre a tampa da panela e olhei para ela, que já estava assentindo. Levantei a tampa rápido: Arroz, branco. Respiramos fundo e rimos enquanto eu pegava a escumadeira.
Os grãos atingidos começaram a se levantar rachando de dentro para fora. A risada mais uma vez cedeu. No meio do arroz morno havia um passarinho. Não entendia muito de pássaros, mas este era marrom e pequeno, provavelmente um filhote. Não sei quanto tempo passou ali enquanto observávamos o passarinho se espreguiçar e bocejar no meio da comida.
Não havia o que dizer, então não dissemos nada. Quando notou que o sol começava a abaixar, ela tomou a escumadeira da minha mão e retirou o pássaro com cuidado. Levou-o à pia e deu-lhe um banho. Embrulhou-o em um pano de prato e sentou-se novamente, agora segurando o filhote entre os braços.
Decidimos guardar o pássaro em segredo. Era nosso demais para compartilhar com os habitantes da casa. Ao anoitecer levava ele para a cama comigo e dormia segurando ele por baixo dos lençóis. Contava para ele sobre mundos que ainda não existiam. Mundos distantes, libertos, loucos. Sabia que um dia eu vou ser ator de novela e vou morar em São Paulo? Sonhávamos juntos.
De dia, enquanto estava na escola, ela cuidava dele e o nutria. Carregando-o no ombro, contava-lhe segredos de passados abandonados. Falava-lhe de céus que nunca amanheceram, quase esquecidos. Pois eu nunca deveria ter me casado de novo, melhor mesmo seria ter ficado em Minas Gerais. Sonhavam juntos.
Com o tempo suas penas caíram e nasceram de novo, agora amarelas. Não mudou muito de tamanho, não precisava. Já eu estiquei demais e a velha diminuiu demais. E os dias se encurtaram, os anos murcharam. A velha morreu. O menino morreu. A mesa foi retirada da varanda e os pisos foram substituídos pelos novos donos.
Hoje, ainda que tente muito lembrar o que houve com o pássaro, não consigo. Esqueci.
m.t.